Inesperadamente inspirada nos tão, confesso que faltam-me adjetivos para classificar os livros dessa inusitada série, “guia do mochileiro das galáxias”, resolvi, para o perfeito direcionamento e compreensão de meus leitores, escrever algumas das mais utilizadas linguagens empregadas nessa minha tão mitificada nova morada.
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Tchau Bella: Sim, de um mês para cá essa tem sido uma frase rotineira. Se me permitem o momento Narcisa, explanarei um pouco sobre o fato. Quando me dirigiram a palavra pela primeira vez com o famoso “Tchau Bella”, de imediato raciocinei que me acharam bonita. Mas a coisa foi ganhando uma proporção, uma vez que eu era carne nova no pedaço, que era Bella prá cá, Bella prá lá, que cheguei a desconfiar que eles estivessem se referindo a Bella do Crepúsculo e uma possível e incabível semelhança entre nós.
Enfim, o Tchau Bella me acaricia os ouvidos sempre que são pronunciados e referidos à minha pessoa.
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Crew Bar: É o lugar, podemos por assim dizer, onde tudo acontece. Barzinho gerenciado por um indiano que assumiu seu posto faz 15 dias. A comunicação poderia ser melhor, uma vez que preciso repetir 5 vezes o número de minha cabine e sem grandes alardes, pedir para ele não gritar quando pergunta se meu sobrenome é “Pinto”, uma vez que minha roomate possui esse sobrenome e o sistema sempre mostra os dois nomes. Tenho esperanças que até o final do contrato ele aprenda que sou a Custodio e encerre assim sua diversão diária com a minha cara.
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Roomate: Termo amplamente utilizado para descrever a pessoa que divide cabine contigo. No meu caso, tive muita sorte, uma vez que ela, Yohanna, é night cleanner, ou seja, trabalha das 20:00 até as 8:00. Sendo assim, somente nos encontramos, quando ela está acordada, no meu intervalo das 14:00 às 18:00. Mas são raras essas vezes.
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Night Cleanner: Pessoa que limpa as áreas públicas do navio. Escadas, corredores, disco, teatro... Enfim, todos os lugares, menos as cabinas.
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Cabinas: Obviamente, é o local onde nossos queridos passageiros se refugiam depois de gastarem centenas de dólares em cassino e bebidas. Tenho um apego com essa palavrazinha que semanalmente é repetida por nosso querido Capolóide, uma vez que quando nervoso, exige cinco (TINQUE) cabinas para inspeção.
Capo Allogi: Vulgo Capolóide, é o cara que manda em todos os outros no que se refere a limpeza. Sabe-se Deus porque, ele gosta de mim! Foi ele que deu minha primeira promoção, mas isso é história para outro dia. Cabe à ele também distribuir os famosos warnings.
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Warning: Perigo. Sim, recebendo 3, considere-se PERDIDO e DESPEDIDO! O primeiro é sempre verbal. Paradoxalmente, o verbal se torna escrito, uma vez que a pessoa que recebe o warning verbal, precisa assinar o mesmo.
O segundo retiram seu nametag (crachá) e o terceiro além de te fazerem trabalhar o dia inteiro, ainda, gentilmente, fornecem algumas horas para arrumar sua mala e passar na contabilidade para acertar as contas, onde nem preciso comentar, com a justa causa, não se recebe muito.
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StandBy: Considerado o terror das tarde é dividido em dois turnos: Primeiro 13:30 às 15:30. Segundo 15:30 às 17:00. Somente camareiras e assistentes de camareiras fazem parte desse seleto time de bravos trabalhadores que em suas horas de descanso, prestam serviços ao navio em sua totalidade, e não somente à sua seção.
Existem rainhas e reis do standby como Tais, que por algumas vezes foi pega limpando o espelho das suítes com a toalha do passageiro, e Caio que freqüentemente perde horário para fazer a luggage (distribuição e entrega das malas).
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Drill: Exercício realizado em cada embarque. Utilizamos os coletes salva vidas e ficamos nos nossos ponto de encontro direcionando os passageiros para seguirem ao Deck 6, onde irão aprender como se posicionarem em uma situação de risco. Fazer o drill não é algo que me agrada, especialmente depois que um fiscal muito cheio das graças, veio me perguntar porque eu estava usando o boné amarelo. Eu delicadamente respondi que era porque estava junto com meu colete. Ele explicou que era somente para quem ficava na escada. Falei então que não iria mais usá-lo. Ele me ameaçou que me daria um warning por isso. Eu disse que não era justo, porque ninguém havia me avisado. Falei sorrindo, uma vez que ele também falou sorrindo. Em seguida comentei que muitos que estavam ali também estavam cometendo o mesmo erro que eu. Ele fechou o sorriso. Perguntou o numero da minha cabina. Não dei. Porque ele queria com o número da minha cabine? Ele olhou bravo e perguntou: O que você está fazendo aí? Eu respondi que esse era meu lugar. Ele falou, deixe-me ver seu papel vermelho. Eu respondi que estava na minha cabina. Ele já nervoso falou que eu deveria ficar com o papel sempre que tivesse drill. Eu achei absurda essa notícia, tanto que sugeri que fossemos, eu e ele, de tripulante em tripulante, perguntar se eles estavam com seus papeis vermelhos. Incrédulo ele olhou para mim e disse: Agora sim você vai receber um warning.
Conclusão, não recebi, por outro lado, fiquei uma semana recebendo treinamento de como me comportar perante um fiscal. O que de um todo, não foi muito ruim, uma vez que era no horário do trabalho.
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Crew Mess: Lugarzinho charmoso onde toda a tripulação se reuni para realizar refeições. Para ser bem sincera, o lugar é aberto quase que o dia todo, até mesmo de madrugada. Porém, a comida deixa a desejar, uma vez que é preparada por mãos e paladares provindos de terras distantes como Indonésia, Índia e El Salvador.
Somente é permitida a entrada de uniforme. Os staffs e oficiais fazem suas refeições em locais diferentes, uma vez que somos a escória do navio e podemos de alguma forma, contaminá-los.
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Tender: Barquinho que leva todos, sem exceção, à terra firme, quando “atracamos” em algum lugar onde não tem porto.
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Gangway: Gerenciada pelos seguranças, é sempre montada no quarto e quinto andar. Armam-se as escadas e os passageiros sobem e descem em terra. Ali também encontra-se máquina de raio x, detector de metais e afins.
Como não poderia deixar de ser, as camareiras e assistentes fazem gentilmente hora extra para recepcionar os passageiros ao lado dos simpáticos seguranças israelenses.
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No possible my friend: Lê-se Nooou Possíblee, e não ao modo tradicional onde a pronúncia é algo parecido com Not Póssibol. Enfim, incrédula, aceitei a ideia de que todos nesse navio pronunciam essa expressão dessa maneira. Penso que essa intensa alteração na sílaba tônica tenha começado a ser modificada quando italianos iniciaram o uso dessa frase, uma vez que nada realmente aqui dentro é possible my friend.
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Não me interessa: Termo utilizado em demasia por Sérvios e Monte Negros, que sintonizados a tradução de brasileiros para o “I don’t care”, fazem uso freqüente do não me interessa. É algo único olhar e escutar um Sérvio dizendo essa frase em português.
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Piano Piano: Devagar, devagar, tranqüilo, tranqüilo. Termo italiano também muito utilizado por todos, especialmente para as assistentes quando estão munidas de seus trolleys.
Trolley: Carrinho de forma retangular, onde toalhas e lençóis são alegremente transportados de uma ponta a outra do navio. Certamente, são dirigidos pelo bravo time de assistentes de camareira. Confesso que minha direção é um tanto quanto perigosa. Sim, já derrubei vacuuns, baldes, atropelei pessoas e toalhas e sim, já houve uma colisão entre outra assistente, e eu.
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Vacuum: Aspira tudo o que vê pela frente. Durante minha primeira semana de treinamento, em um piscar de olhos, enquanto fui jogar o lixo no meu big trolley, a Duane, moça que estava me treinando, aspirou uma meia do passageiro. Rápida e veloz, em uma operação de resgate, abriu o vacuum, retirou a meia, foi ao banheiro, lavou a mesma e com a preciosa ajuda de um secador de cabelo fixo a parede, secou a meia. Essa atividade extra curricular foi realizada e finalizada em menos de 2 minutos. Inacreditável a destreza dessas assistentes.
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Crew: Como anteriormente citado, é a mão de obra, literalmente braçal, do navio. Sem o crew, nada funciona. Ganhamos menos, e certamente, trabalhamos mais. A cobrança acontece desde a hora do despertar à hora de descansar. Afora o cansaço físico, a crew ainda leva, inteiramente de brinde, a lassidão emocional. Enfim, ser crew é para poucos. Somente um crew, sabe o que é ser um crew.
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Penso que para o inicio, basta por hoje.