quarta-feira, 15 de junho de 2011

Guia Prático

Inesperadamente inspirada nos tão, confesso que faltam-me adjetivos para classificar os livros dessa inusitada série, “guia do mochileiro das galáxias”, resolvi, para o perfeito direcionamento e compreensão de meus leitores, escrever algumas das mais utilizadas linguagens empregadas nessa minha tão mitificada nova morada.
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Tchau Bella: Sim, de um mês para cá essa tem sido uma frase rotineira. Se me permitem o momento Narcisa, explanarei um pouco sobre o fato. Quando me dirigiram a palavra pela primeira vez com o famoso “Tchau Bella”, de imediato raciocinei que me acharam bonita. Mas a coisa foi ganhando uma proporção, uma vez que eu era carne nova no pedaço, que era Bella prá cá, Bella prá lá, que cheguei a desconfiar que eles estivessem se referindo a Bella do Crepúsculo e uma possível e incabível semelhança entre nós.
Enfim, o Tchau Bella me acaricia os ouvidos sempre que são pronunciados e referidos à minha pessoa.
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Crew Bar: É o lugar, podemos por assim dizer, onde tudo acontece. Barzinho gerenciado por um indiano que assumiu seu posto faz 15 dias. A comunicação poderia ser melhor, uma vez que preciso repetir 5 vezes o número de minha cabine e sem grandes alardes, pedir para ele não gritar quando pergunta se meu sobrenome é “Pinto”, uma vez que minha roomate possui esse sobrenome e o sistema sempre mostra os dois nomes. Tenho esperanças que até o final do contrato ele aprenda que sou a Custodio e encerre assim sua diversão diária com a minha cara.
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Roomate: Termo amplamente utilizado para descrever a pessoa que divide cabine contigo. No meu caso, tive muita sorte, uma vez que ela, Yohanna, é night cleanner, ou seja, trabalha das 20:00 até as 8:00. Sendo assim, somente nos encontramos, quando ela está acordada, no meu intervalo das 14:00 às 18:00. Mas são raras essas vezes.

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Night Cleanner: Pessoa que limpa as áreas públicas do navio. Escadas, corredores, disco, teatro... Enfim, todos os lugares, menos as cabinas.

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Cabinas: Obviamente, é o local onde nossos queridos passageiros se refugiam depois de gastarem centenas de dólares em cassino e bebidas. Tenho um apego com essa palavrazinha que semanalmente é repetida por nosso querido Capolóide, uma vez que quando nervoso, exige cinco (TINQUE) cabinas para inspeção.
Capo Allogi: Vulgo Capolóide, é o cara que manda em todos os outros no que se refere a limpeza. Sabe-se Deus porque, ele gosta de mim! Foi ele que deu minha primeira promoção, mas isso é história para outro dia. Cabe à ele também distribuir os famosos warnings.

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Warning: Perigo. Sim, recebendo 3, considere-se PERDIDO e DESPEDIDO! O primeiro é sempre verbal. Paradoxalmente, o verbal se torna escrito, uma vez que a pessoa que recebe o warning verbal, precisa assinar o mesmo.
O segundo retiram seu nametag (crachá) e o terceiro além de te fazerem trabalhar o dia inteiro, ainda, gentilmente, fornecem algumas horas para arrumar sua mala e passar na contabilidade para acertar as contas, onde nem preciso comentar, com a justa causa, não se recebe muito.

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StandBy: Considerado o terror das tarde é dividido em dois turnos: Primeiro 13:30 às 15:30. Segundo 15:30 às 17:00. Somente camareiras e assistentes de camareiras fazem parte desse seleto time de bravos trabalhadores que em suas horas de descanso, prestam serviços ao navio em sua totalidade, e não somente à sua seção.
Existem rainhas e reis do standby como Tais, que por algumas vezes foi pega limpando o espelho das suítes com a toalha do passageiro, e Caio que freqüentemente perde horário para fazer a luggage (distribuição e entrega das malas).

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Drill: Exercício realizado em cada embarque. Utilizamos os coletes salva vidas e ficamos nos nossos ponto de encontro direcionando os passageiros para seguirem ao Deck 6, onde irão aprender como se posicionarem em uma situação de risco. Fazer o drill não é algo que me agrada, especialmente depois que um fiscal muito cheio das graças, veio me perguntar porque eu estava usando o boné amarelo. Eu delicadamente respondi que era porque estava junto com meu colete. Ele explicou que era somente para quem ficava na escada. Falei então que não iria mais usá-lo. Ele me ameaçou que me daria um warning por isso. Eu disse que não era justo, porque ninguém havia me avisado. Falei sorrindo, uma vez que ele também falou sorrindo. Em seguida comentei que muitos que estavam ali também estavam cometendo o mesmo erro que eu. Ele fechou o sorriso. Perguntou o numero da minha cabina. Não dei. Porque ele queria com o número da minha cabine? Ele olhou bravo e perguntou: O que você está fazendo aí? Eu respondi que esse era meu lugar. Ele falou, deixe-me ver seu papel vermelho. Eu respondi que estava na minha cabina. Ele já nervoso falou que eu deveria ficar com o papel sempre que tivesse drill. Eu achei absurda essa notícia, tanto que sugeri que fossemos, eu e ele, de tripulante em tripulante, perguntar se eles estavam com seus papeis vermelhos. Incrédulo ele olhou para mim e disse: Agora sim você vai receber um warning.
Conclusão, não recebi, por outro lado, fiquei uma semana recebendo treinamento de como me comportar perante um fiscal. O que de um todo, não foi muito ruim, uma vez que era no horário do trabalho.

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Crew Mess: Lugarzinho charmoso onde toda a tripulação se reuni para realizar refeições. Para ser bem sincera, o lugar é aberto quase que o dia todo, até mesmo de madrugada. Porém, a comida deixa a desejar, uma vez que é preparada por mãos e paladares provindos de terras distantes como Indonésia, Índia e El Salvador.
Somente é permitida a entrada de uniforme. Os staffs e oficiais fazem suas refeições em locais diferentes, uma vez que somos a escória do navio e podemos de alguma forma, contaminá-los.

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Tender: Barquinho que leva todos, sem exceção, à terra firme, quando “atracamos” em algum lugar onde não tem porto.

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Gangway: Gerenciada pelos seguranças, é sempre montada no quarto e quinto andar. Armam-se as escadas e os passageiros sobem e descem em terra. Ali também encontra-se máquina de raio x, detector de metais e afins.
Como não poderia deixar de ser, as camareiras e assistentes fazem gentilmente hora extra para recepcionar os passageiros ao lado dos simpáticos seguranças israelenses.

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No possible my friend: Lê-se Nooou Possíblee, e não ao modo tradicional onde a pronúncia é algo parecido com Not Póssibol. Enfim, incrédula, aceitei a ideia de que todos nesse navio pronunciam essa expressão dessa maneira. Penso que essa intensa alteração na sílaba tônica tenha começado a ser modificada quando italianos iniciaram o uso dessa frase, uma vez que nada realmente aqui dentro é possible my friend.

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Não me interessa: Termo utilizado em demasia por Sérvios e Monte Negros, que sintonizados a tradução de brasileiros para o “I don’t care”, fazem uso freqüente do não me interessa. É algo único olhar e escutar um Sérvio dizendo essa frase em português.

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Piano Piano: Devagar, devagar, tranqüilo, tranqüilo. Termo italiano também muito utilizado por todos, especialmente para as assistentes quando estão munidas de seus trolleys.
Trolley: Carrinho de forma retangular, onde toalhas e lençóis são alegremente transportados de uma ponta a outra do navio. Certamente, são dirigidos pelo bravo time de assistentes de camareira. Confesso que minha direção é um tanto quanto perigosa. Sim, já derrubei vacuuns, baldes, atropelei pessoas e toalhas e sim, já houve uma colisão entre outra assistente, e eu.

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Vacuum: Aspira tudo o que vê pela frente. Durante minha primeira semana de treinamento, em um piscar de olhos, enquanto fui jogar o lixo no meu big trolley, a Duane, moça que estava me treinando, aspirou uma meia do passageiro. Rápida e veloz, em uma operação de resgate, abriu o vacuum, retirou a meia, foi ao banheiro, lavou a mesma e com a preciosa ajuda de um secador de cabelo fixo a parede, secou a meia. Essa atividade extra curricular foi realizada e finalizada em menos de 2 minutos. Inacreditável a destreza dessas assistentes.

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Crew: Como anteriormente citado, é a mão de obra, literalmente braçal, do navio. Sem o crew, nada funciona. Ganhamos menos, e certamente, trabalhamos mais. A cobrança acontece desde a hora do despertar à hora de descansar. Afora o cansaço físico, a crew ainda leva, inteiramente de brinde, a lassidão emocional. Enfim, ser crew é para poucos. Somente um crew, sabe o que é ser um crew.
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Penso que para o inicio, basta por hoje.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Don't leave me




aaaaaaJá se passaram exatos 37 dias.

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Eu poderia empregar horas na tentativa de explicar sobre a indescritível sensação de se morar nesse ninho de pessoas surtadas, embora saiba que jamais irão entender em sua totalidade o real significado de ser um tripulante.

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Não pensem que os subestimo, apenas penso estar sendo realista no quesito compreensão coletiva.

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Muitao tem acontecido, para ser bem sincera e perdão pelo pleonasmo, muito mesmo! A vida aqui, mesmo sem nosso consentimento, é vivida intensamente. Minha rotina me massacrou o corpo e a mente durante as primeiras semanas, mas agora acostumada e condicionada, consigo administrá-la de modo que a exaustão seja adiada sempre para o dia seguinte.

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Havia escrito, minto, começado a escrever um pequeno (leia-se 3 páginas) tutorial sobre a vida a bordo, mas meu coração pede que um novo texto seja redigido e publicado com urgência.

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Assim que cheguei, deparei-me com um lindo sorriso. Sim, belíssima também é sua aura, a leveza que pronuncia as palavras e o olhar que enxerga a vida e edifica seus planos. Apensar de odiar seu nome composto, essa mocinha que não possui mais de 1,58 de altura, conquistou em poucas horas minha amizade.

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Espontânea como eu, facilmente encontra-se em situações que assim como nosso Capo diz, necessitam de “atencione”. Ontem mesmo, por volta das 18:00, juntas, recebemos alegremente uma modesta bronca de nosso Capoloide, onde o mesmo, com olhos fixos nela, perguntava se estávamos fora de nossas mentes. Enfim, não entendemos por completo o porquê de tanto alarde sendo que estávamos apenas sentadas no chão, sem uniforme, com computadores no colo e na área de passageiros.

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Hoje pela manhã, o marido dessa alegre menina, veio de encontro a mim. Com os olhos marejados, me abraçou e me disse adeus. Contou que decidiu desembarcar e o faria em algumas horas. Convicto, pediu para que eu cuidasse dela. Embora já estivesse ciente sobre essa miscelânea de sentimentos que somente os que se entregam sentem, essa notícia de imediato partiu meu coração.

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Desejei o melhor para ele e na promessa de que zelaria por ela, como zelo por minhas melhores amigas, me despedi dele, que voltou em seguida para sua cabine para terminar de arrumar suas malas.

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Instantes depois ela chegou. O silencio foi quebrado pela força do abraço e o cair das lágrimas. Sua postura antes imponente, agora mostrava-se tão frágil e abalada.

Com pausas sofridas, tentava explicar o inexplicável. Sem grandes sucessos, explanei o que minha pouca experiência pode aconselhar. Porém, fui enfática ao dizer que assim como não tenho o direito de interferir nos sonhos de uma pessoa, também não admito que interfiram nos meus, podendo ser essa pessoa quem for.

Expliquei que os mais fragilizados, aqueles que todos pensam que levarão anos para se recuperarem da queda, são sempre os primeiros a colocarem suas vidas de volta aos trilhos.

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Após algumas horas, ela me disse que talvez também fosse partir.

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Posso, com uma certa autoridade, dizer que a vida é repleta de percalços, caminhos seguidos de forma irregular, escolhas impensadas e decisões repentinas que podem mudar a trajetória de uma ou mais vidas.

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“Armônia” irá partir hoje de Recife, com precisão, às 19:30. Meu inquieto coração aguarda para saber qual o rumo que a menina do lindo sorriso irá seguir.


domingo, 13 de março de 2011

Rupturas de Alicerces

aaaaaaaPor singelos 15 minutos que tanto assemelhavam-se à tortuosas horas, deparei-me frente a frente a meu velho e inseparável computador. Atônita, procurava encontrar, ou quem sabe inventar, uma fórmula talvez reduzida, talvez detalhada em demasia, talvez real ou quem sabe utópica para traduzir e expressar em palavras a mistura de sentimentos que, porque não dizer, assiduamente me assombram.
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Sempre fui daquele tipo de pessoa que cobra demais de si, especialmente naquilo que julgo ser capaz:. Logo, criar, escrever e publicar em um novo blog, com um público novo e sem grandes expectativas em relação a minha antiga reputação de “redatora” está sendo uma espécie de desafio.

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O ato de escrever, inevitavelmente, remete-me as tempestuosas tardes que encorajada pela gana do desconhecido, enfrentei em minha tão amada Itapema. Penso que escrever sempre será o meu elo com o passado.

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Houve sim um grande amadurecimento, uma vez que antigamente, minha grande inspiração era o sofrimento. Fato que paradoxalmente, fez-me afastar da mesma (...)

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Mas sim, fui muito feliz em Itapema. Madrugadas sem dormir diagramando anúncios sobre “Chaplin”, tardes aventurando-me e dedicando-me à milenares táticas para entupir pias com sementes de morango, noites regadas a vinhos e violão em Quatro Ilhas...

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Hoje, aquela pequena cidade onde depositei meus grandes sonhos, não mais abriga minhas esperanças.

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(...)

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Penso que talvez, seja essa a primeira e última vez que escreverei sobre meu passado nesse blog, que ainda sem formato definido, espero que seja minha grande fonte de deleite.

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Enfim, sobre o presente? Bom, posso dizer que encontrei inusitadamente em meu caminho, um verdadeiro presente que segurava uma prancha debaixo do braço e seguia alegremente pelo calçadão de Praia Grande. Em meio a uma aposta e ao som de “Pra você lembrar de mim” meu coração começou a dar sinal de vida, depois de uma longa primavera sem bater.

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O presente também me abençoou com memoráveis noites encostados na ponte da Ilha, onde embriagados pela ansiedade do incerto, cantávamos: “Enquanto o tempo passa, eu espero que: Que um dia a gente suba no altar. Seguir os ossos trilhos, ser feliz ter vários filhos, um quintal com mini hamp e umas plantinhas pra cuidar. Vamos pra Ilha Grande em Julho, correr e esquecer de tudo, ver o mundo mais azul...”

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É, a vida voltou a fazer sentido. Os amigos eram outros, era nova a cidade, as ondas menos agressivas e até o Sol aparentava brilhar de forma diferente. Mas essas novas sensações que antecipadamente eu já sabia que teria um final seco, frio e breve, teve seu percurso concluído.

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aaaaaComprometo-me enfaticamente então, a direcionar minhas próximas escritas aos últimos acontecimentos significativos que rondam minha mais nova morada, o mar.